O primeiro livro dos Macabeus: Uma guerra pela preservação da Lei?

12/06/2011 19:00

1- Introdução

 

O presente trabalho trata-se da pesquisa sobre o primeiro livro dos Macabeus, tendo como princípio da pesquisa entender o processo evolutivo, a época em que foi escrito, o conteúdo e a autoria do texto. A escolha do livro deveu-se ao fato de o mesmo ser pouco pesquisados no ambiente acadêmico do Seminário Teológico Batista de Duque de Caxias, segundo informação obtida com a professora, em sala de aula, mais especificamente na matéria de introdução bíblica, além de ser um texto rico em dados históricos de um período que não é descritos no Canon Sagrado. O presente trabalho não tem como propósito esgotar tudo que se pode saber sobre o livro, mas fazer uma analise introdutória do conteúdo escrito. A metodologia utilizada foi a de pesquisa no texto bíblico, livros relacionados com o assunto  e conteúdo on line – Internet. Encontrei dificuldade no processo de pesquisa tendo em vista ser este um texto nada usual em nossas comunidades de fé, sendo encontrado somente em bíblias com o Cânon diferente do encontrado nas bíblias utilizadas pelos protestantes. O texto versa sobre um período histórico e conta os feitos de um grupo de Judeus piedosos, cumpridores da lei a todo custo, inclusive com o sacrifício da própria vida, que tenta expurgar da sociedade e religiosidade Judaica os conceitos implantados por meio de decretos, perseguições e assassinatos destes homens piedosos, bem como de seus familiares. O texto do trabalho está organizado em tópicos que atenderam à solicitação da professora quando da solicitação do trabalho.

 

    2 - Data da escrita

 

O contexto histórico do primeiro livro dos Macabeus se entrelaça com a história do império Grego dividido entre alguns generais. Nesse contexto encontramos a nome de Antíoco Epífanes, que entra em Jerusalém, voltando de uma batalha no Egito, sacrifica um porco no altar, dedica um altar no templo a Zeus e destrói as cópias da Lei. Estabeleceu a pena de morte para quem praticasse a circuncisão e ordenou que não se guardasse o sábado. Aproximadamente em dezembro de 168 a.C, o sacrifício do Templo cessou. A abominação da desolação descrita em Daniel.

A precisão da data da escrita do livro é difícil de afirmar, tendo em vista que o texto original em hebraico não foi conservado e somente o texto grego serve de base para as pesquisas atuais. O comentário introdutório dos livros dos Macabeus, da bíblia de Jerusalém – Nova edição revista e ampliada dá a entender que o texto foi escrito depois do ano de 134 a.C e antes da tomada de Jerusalém por Pompeu, em 63 a.C. No capítulo 16, vers. 23-24, há uma indicação de que o texto foi escrito no final do reinado de João Hircano, provavelmente após a sua morte. Com essas datas, é possível enxergar como data mais aproximada da escrita o ano 100 a.C.

 “Quanto ao restante dos feitos de João, das guerras e façanhas que realizou, da reconstrução dos muros que levou a termo e de todas as suas empresas, essas coisas estão relatadas nos anais do seu sumo sacerdócio, desde o tempo em que se tornou sumo sacerdote depois de seu pai.” 1Mc cap. 16 vers. 23,24.

 

    3 - Conteúdo

 

De conteúdo exclusivamente histórico, o primeiro livro dos Macabeus, narra resumidamente os feitos de um grande líder mundial, sua morte e a divisão de seu reino pelos oficiais e nobres do reino e ascensão desses oficiais que influenciaram negativamente o modo de vida do povo de Deus, seja no seu contexto social ou no seu contexto religioso.  Além disso, conta a história de homens que, zelosos que eram pela preservação da lei e da tradição de seus antepassados, no que se refere à forma de culto e forma de adoração, se lançam em uma campanha militar para libertar Israel do jugo opressor e restabelecer a liberdade religiosa e política da nação. Os Judeus desse período tiveram a principio, uma resistência passiva, não cumprindo os editos do rei e por conta disso sendo sacrificados junto com seus familiares. Quando a perseguição recrudesceu e a medida em que os fogos da adoração a Deus queimavam mais baixo, eles decidiram levar as mãos às armas e às armas tendo dessa forma uma resistência ativa. Matatias, da linhagem de Chasmon ou Hasmon e seus cinco filhos: João, Judas, Eleazar e Jonatã, empreenderam várias campanhas para libertar Israel do julgo opressor. Uniram-se a Matatias Judeus de toda a palestina inconformados com a política opressora de Antíoco Epífanes e antes desses, os Hassidins ou assideus (zelotes da lei). Após a morte de Matatias, Judas assume a liderança dos revoltosos tendo Simão como seu conselheiro principal. Foi chamado de Macabeus (Martelador) por ter sido um excelente general. Depois de várias vitórias, Judas entrou em Jerusalém em 165 a.C e re-dedicou o templo ao culto ao Senhor.

Judas intencionava uma liberdade não só religiosa, mas almejava também alcançar uma liberdade política. Os Hassidins se opuseram a este plano e não participaram das batalhas com este intento. Muitos judeus sentiram-se ofendidos quando Judas apelara a Roma por ajuda (I Mac. 8:17-32). Na batalha de Elasa, em 161 a.C, com apenas 600 soldados, Judas foi morto.

Sucedeu a Judas, seu irmão Jonatã, tornando-se um brilhante líder, principalmente por seu sucesso em manobras políticas, tendo sido inclusive designado como sumo-sacerdote, fazendo com que os judeus recebessem liberdade religiosa. Após a sua morte, Simão assumiu a liderança e o sumo sacerdócio. Por ser um astuto político e por sua maneira diplomática de agir, em 142 a.C, Simão conseguiu a tão sonhada independência política. Essa independência durou de 142 a.C a 63 a.C. Os príncipes que se seguiram a João Hircano I, filho de Simão, não eram de espírito patriota, corajosos e auto-sacrificial, marcas inerentes aos antigos Macabeus. Eles enfraqueceram a liderança de Isael a custas de posição e intriga política, muitas das vezes havendo discórdias de irmão contra irmão, filho contra mãe, tendo sido finalmente apelado à força romana e com esta intervenção a nação judaica torna-se uma província romana.

Uma leitura cuidadosa do texto do primeiro livro dos Macabeus nos leva e supor que em algum momento foram feitos acréscimo ao texto de forma a atender a uma demanda específica. Isso pode ser notado quando após várias narrativas de guerras e conquistas por parte dos Judeus, repentinamente encontramos um texto que tem por finalidade apenas reforçar a importância dos membros de uma família, a saber, a família de Matatias, como líderes nacionais. Cap 8, Cap 12, 1-23, Cap 14, 16-24 e 25-49, Cap 15,15-24.

Esses possíveis acréscimos ao relato inicial de campanhas militares e conquistas e o final repentino em 16.23-24, talvez queira mostrar que a função do primeiro livro dos Macabeus seja contar a história das origens da dinastia assim como da primeira geração desta dinastia, encarregada de libertar Israel.

Há momentos no texto em que se percebem as relações dessa dinastia com Roma e Esparta, demonstrando dessa forma o relacionamento da primeira geração de libertadores deste período com povos distantes e com os povos que dominavam o mundo da época.

O conteúdo de I Macabeus pode ser estruturado da seguinte forma:

1.     Prólogo

Relato sobre Alexandre Magno até Antíoco IV, chamado de Epífanes, onde são estabelecidos informações de cunho histórico que podem ser ratificados através de conteúdos de história geral.

2.     Introdução

Neste ponto, encontramos a descrição da origem de toda a perseguição instaurada em Israel a partir de Antíoco Epífanes. Nesta introdução, encontramos também a descrição da apostasia de alguns Judeus e as aflições geradas pela apostasia existente.

3.     Parte central do Livro

Nesta parte do livro, encontramos o processo de restabelecimento da liberdade religiosa e política de Israel, instaurada à custa de sacrifício dos defensores da Lei e do culto dos antepassados. É precisamente nesta parte que encontramos a ação de Matatias, que com forte zelo pela lei levanta uma revolta contra os opressores, a fim de manter puros, tanto o templo que fora profanado, como o povo que fora incitado a abandonar ao Deus verdadeiro e oferecer sacrifício aos deuses dos outros povos. Os editos de Antíoco Epífanes, no pensamento de Matatias eram por demais desonrosos e deviam ser a todo custo desprezados. Entretanto, não eram todos da parte de Israel que queriam manter essa pureza apregoada por Matatias.

Há dois momentos entre tantos outros que vale destacar: O primeiro ocorre quando os emissários do rei chegam a Modim para sacrificar e convida Matatias como “chefe ilustre” para cumprir a ordem do rei em primeiro lugar. Matatias não só recusa-se a abandonar as leis e tradições como, tomado de intensa ira, arremete-se contra um Judeu apóstata e o trucida em cima do altar tendo logo em seguida matado o emissário do rei. O segundo momento descreve a decisão que Matatias e seus companheiros tomaram de quebrar a guarda do sábado caso fosse necessário salvar as suas próprias vidas, das suas mulheres e de seus filhos. Isto mostra a ação zelosa de Matatias, tentando nos fazer perceber quais eram as atitudes corretas a serem tomadas naquele contexto histórico.

É possível perceber também, que o texto deixa a mensagem de que a medida quem o zelo de Matatias era assimilado pelo povo, o sofrimento e as aflições eram diminuídos. Nesta parte central, são citadas as lutas pela libertação de Israel e cumprimento de alvos estabelecidos na purificação do templo e do povo, bem como a libertação de Judeus que haviam se refugiado em regiões vizinhas.

Temos ainda na parte central a descrição da morte do sanguinário Antíoco Epífanes e a ascensão de Antíoco V que marcha até Jerusalém incitados por judeus apostatas. A libertação continua e é concluída sob a liderança de Jonatas e Simão.

 

    4 - Autoria

 

Pouco se sabe sobre o autor, mas é altamente possível que se tratasse de um nativo da Palestina, tendo em vista a língua em que fora escrito o livro e o conhecimento profundo da geografia da Palestina. O contexto histórico do livro revela que não há nenhuma ação em querer esconder a simpatia do escritor aos que compunham a dinastia Hasmonéia, tendo sido o livro escrito sob esta perspectiva, aos olhos da própria dinastia. Citar o nome precisamente de quem escreveu o livro é temeroso, mas podemos inferir da prática de se elevar o nome dos Hasmoneus, que o livro foi escrito por alguém desta dinastia ou que tinha muita simpatia por esta dinastia. Há uma perspectiva unilateral na construção histórica do texto de forma que o mesmo é sempre favorável aos Hasmoneus e coloca Judas e seus irmãos como lutadores e libertadores de Israel e restauradores da prática religiosa, política e social anteriormente existente em Israel.

 

    5 - Conclusão

 

A conclusão que se chega ao se ler o primeiro livro dos Macabeus é de um mergulho não muito profundo na história intertestamentária. Há muitos fatos que podem ser comprovados historicamente, porém há muitos outros que podem ser fictícios tendo em vista terem sido escrito sob uma perspectiva totalmente favorável a uma parcela do povo, os Hasmoneus.

Não há como aceitá-lo entre os livros canônicos, aja vista ter sido compilado em um período onde o Cânon aceito já havia sido encerrado. A inscrição de 1Mac 4,45-46 “Demoliram-no, pois, e depuseram as pedras sobre o monte da Morada conveniente, à espera de que viesse algum profeta e se pronunciasse a respeito” denota a falta de conhecimento de alguém  a altura dos profetas de Deus para falar no meio do povo. A afirmação de um grande sofrimento por parte do autor é colocada em termos cronológicos como em um momento em que não havia mais profetas no meio deles “Foi uma grande tribulação para Israel, como nunca houve desde o dia em que não mais aparecera um profeta no meio deles” 1Mac 9.27.

O primeiro livro dos Macabeus preocupa-se em mostrar e exaltar uma dinastia e seus atos não se preocupando em creditar esses atos ao Deus de Israel, e nos leva pensar se o interesse central não seria somente o de mostrar os feitos desta dinastia, em detrimento à preservação da Lei.

O historiador judeu Flavio Josefo declara que desde Artaxerxes não fora encontrada escrita que fosse díguina de crédito igual aos registros mais antigos, pelo fato de não possuir a anotação exata da sucessão de profetas. Para Flavio Josefo só havia 22 livros considerados canônicos e que nenhum além desses poderiam ser considerado.

Orígenes deixa ao morrer uma lista de 22 livros canônicos semelhantes ao de Josefo, não tendo inserido nenhum livro apócrifo.

 

    6 - Bibliografia

ENGEL, Helmut et al. Introdução ao Antigo Testamento. Brasil, São Paulo: Edições Loyola, 2003.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus – de Abraão à queda de Jerusalém. Brasil, Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2004 8ª edição.

GORGULHO, Gilberto da Silva et al. Bíblia de Jerusalém. Brasil, São Paulo: Editora Paulus, 2004.

Porque recusamos os Apócrifos - Parte I. Disponível em <http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-InspiracApologetCriacionis/PorqueRecusamosApocrifos-DefesaFeICP.htm> Acesso em 20 de fevereiro de 2011.