A infância erotizada: O Papel das mídias na mudança de paradigmas relacionados a precocidade sexual.

19/02/2013 23:58

Claudia Araújo da Silva

Graduada em Licenciatura Plena em História pela faculdade Feuduc.

Graduando do segundo período do curso de Teologia da Unigranrio.

Ronildo da Silva Brites

Graduando do segundo período do curso de Teologia da Unigranrio.

 

RESUMO:

O objetivo deste artigo é analisar as mídias oferecidas no contexto da infância e adolescência, que propiciam e incitam a uma permissividade erótica precoce e influencia na vida social dessa faixa etária. Desse ponto de partida, pretende-se avaliar até que ponto a moda, a televisão e a internet tem favorecido a uma precocidade sexual.

PALAVRAS-CHAVE: Infância, adolescência, permissividade erótica, precocidade sexual.

 

ABSTRACT:

The aim of this paper is to analyze the media offered in the context of childhood and adolescence, which allow and encourage a permissive erotic early influences and social life in this age group. From this starting point, we intend to evaluate the extent to which the fashion, television and the Internet has fostered a sexual precocity.

KEYWORDS: Childhood, Adolescence, erotic permissiveness, sexual precocity.

 

    Ao iniciar este artigo, faz-se necessário esclarecer que a intenção do mesmo é verificar o quanto os conceitos de moralidade, estabelecidos anteriormente por instituições fortes, como a família, a igreja, a moral social, instituições estas que estão em franca modificação de posturas, não são valorizados com anteriormente. Em uma análise de um julgamento de Habeas corpus de um réu acusado de estupro de uma menina, menor de dezoito anos de idade, pelo Supremo Tribunal Federal, é possível perceber que aqueles magistrados, imbuídos da necessidade de se fazer valer a justiça, consideraram que a postura daquela que sofrera o suposto estupro já não era mais de uma criança, e mesmo que tivesse idade cronológica de apenas doze anos, tinha uma vida sexual ativa e promíscua. A partir deste pressuposto, analisaremos o quanto desta postura inadequada para a faixa etária é fruto e, até mesmo incentivo das mídias, da moda e da internet. Mesmo tendo sido feita uma análise acurada do texto do referido julgamento, não cabe aqui tratar de uma discussão do julgamento em si e das implicações jurídicas dele.

    É conhecido pelos teóricos e profissionais que estudam o comportamento humano, que a criança elabora aos poucos estímulos que farão parte de sua realidade erótica. A mãe, pela proximidade inicial, assume o papel de seu primeiro amor. A medida em que o tempo passa, o pai aos poucos é introduzido nesta relação, de modo que nela se coloque limites. Na figura do pai, insere-se também o organizador do erotismo da criança, que aos poucos vai aprendendo a renunciar à mãe para o pai, resignando-se a adiar para outra época a totalidade do seu erotismo. Desse processo, extremamente complicado, onde participam a mãe, o pai e os familiares e da forma como ele é resolvido, a psicologia afirma que dependerá a saúde mental desse indivíduo, para toda a sua vida. Percebe-se então, que é nesta estruturação psicossexual da criança, onde há uma troca afetiva entre ela, seus pais e seus familiares, cada um com uma função determinada, que a criança vai aos poucos organizando seus impulsos eróticos em harmonia com as regras de seu sistema familiar.

    Ao contrário do que a construção mental, afetiva e social, proposta pelos teóricos das ciências humanas, percebe-se que a criança e o adolescente moderno passam por uma realidade social onde há um processo de erotização que se inicia na infância, atravessa a adolescência e atinge sua maior marca ainda no fim da adolescência. Não é de se admirar que em grande parte das pesquisas, a realidade é que cinquenta por cento dos jovens já são ativos sexualmente com apenas quinze anos de idade. Esse processo não fica somente no plano sexual, mas acaba se tornando um problema de saúde pública. O ministério da saúde possui números alarmantes nessa área. A maior parte das internações de meninas de dez a quatorze anos estão relacionados com partos ou abortos mal sucedidos. Cinquenta por cento dos atendimentos nos postos de saúde mostram que as adolescentes estão engravidando nos seis primeiros meses de atividade sexual, enquanto que vinte por cento engravidam no primeiro mês de atividade sexual. Embora pesquisas apontem que mais de noventa por centos dos adolescentes conhecem os recursos contraceptivos, apenas seis por cento usaram esse recurso na primeira relação sexual. Aliado a esses dados, as estatísticas apontam o Brasil como uma das mecas do turismo sexual e da prostituição infantil.

    É na mídia televisiva que encontramos a principal fonte cultural para que esse processo erotizante exista. A televisão cria incentivos e gera crianças com atitudes eróticas que só deveriam fazer parte de suas realidades anos mais tarde. Evidentemente, essa ação televisiva não é tão explicita a ponto de serem percebidas por aqueles que deveriam tutelar as ações destas crianças. A exibição de crianças erotizadas e erotizantes faz parte desse processo. A criança é então estimulada a agir sob um modelo que não corresponde a sua realidade psíquica, emocional e, em muitas vezes, física. Maquiagens, roupas, danças erotizantes são apenas alguns marcos desse processo.

    Por conta dessa sutileza, observa-se que os pais, que deveriam ser os limites da vida de seus filhos, fazendo-os desfrutar de todas as etapas de sua existência, acabam sendo eles mesmos os incentivadores dessa prática.

    É preciso que se faça aqui uma explicação acerca de uma má interpretação da psicologia e da psicanálise. Algumas pessoas passaram a acreditar que não se deve impor limites às crianças, de modo que esses limites não as traumatizem e façam com elas percam sua criatividade. Essa falsa interpretação da psicanálise, difundida atualmente, torna-se a raiz de muitas controvérsias e dissabores na nossa cultura. Por conta disso, grande parte dos professores já não sabem mais o que fazer para conter a falta de limites das crianças nas escolas, e a sociedade por sua vez, também não consegue colocar limites na escalada de violência. Cabe aqui salientar que a educação dos impulsos primitivos perversos, além de ser socializadora é também humanizadora.

    Como os pais foram ensinados, por uma interpretação equivocada, a não impor limites aos filhos, são eles, os pais, que aplaudem as filhas estereotipadas como dançarinas prostitutas, disfarçadas de artistas, tudo isso sob aplausos e sorrisos. Outro dado importante nessa erotização de infantil e adolescente é o que isso produz em alguns adultos que, estimulados por visões deturpadas de mini-mulheres, enxergam nelas um produto e criam um mercado que suprirá demandas através da pedofilia, sequestros, estupros e até mesmo assassinatos. Hoje já é possível encontrar vários sites na internet incentivadores dessa prática, onde crianças e adolescentes são oferecidos como mercadoria sexual, onde, mesmo que não sejam tocadas, são aviltadas em suas privacidades quando são expostas e fotos e vídeos eróticos. Nesse sentido, entende-se que a mídia produz e incentiva essa erotização precoce e as autoridades a perpetuam pela omissão.

    O campo da televisão é com certeza o maior elemento de estímulos no que se refere ao processo da erotização infantil e adolescente. A sociedade brasileira lutou e conquistou liberdades de expressão, abolindo a censura dos meios televisivos. O que deveria ser um dado a ser comemorado, apresenta-se como algo a ser questionado, revisto e até mesmo re-modelado. Não está proposto aqui um incentivo a volta da censura, tal como nos anos da ditadura, mas é preciso fazer uma leitura mais acurada e critica de como a liberdade conquistada pode ser mais maléfica do que benéfica.

    O modelo masculino de mulher-produto tem sido oferecido gratuitamente pelas redes de televisão aberta, através dos inúmeros programas de auditórios que tem o interesse de difundir estilos comerciais, em detrimento de oferecer diversão de boa qualidade. Esses estilos comerciais invariavelmente expõem mulheres vestidas de modo a mostrar seus corpos, exaltando os atributos físicos, mostrando gestos, movimentos sensuais, erotismo grotesco ao gosto do publico masculino. Com uma formula de sucesso fácil, os modelos femininos de vida bem sucedida, passaram a ser em algumas camadas da sociedade, aquelas que através de seus corpos em ação erótica, no palco, faziam com que seus empresários ficassem ricos. Por estarem ricos, incentivavam ainda mais este tipo de postura como sendo um modelo aceitável de diversão televisiva. Não houve mais respeito pelo horário ou preocupação com a faixa etária que assistia a estes programas. As mensagens subliminares que estão sendo estabelecidas aqui são a de que para ser famosa, preciso ser como aquela da televisão, e como ela se veste, dança e se comporta daquela maneira, preciso me vestir, dançar e me comportar como ela.

    Este modelo televisivo cria um subproduto de si mesmo quando meninas e meninos começam a imitá-los. Evidentemente, como nossa sociedade ainda traz um ranço de machismo, as maiores vitimas deste processo são as meninas, que incentivadas por seus próprios tutores, apresentavam-se com o mesmo gestual e vestimenta eróticos, expondo e ressaltando corpo, levando a plateia ao delírio. A evolução desta prática foi a criação de grupos infantis que replicavam os grupos adultos, isso feito de forma profissional, em uma exibição grotesca, com letras de músicas inadequadas para crianças. O que surpreende aqui é o fato de tanto pais, como público, apresentadores e autoridades acharem natural este tipo de postura erotizante inadequada a idade.

    Como foi dito acima, é preciso que as autoridades se posicionem no sentido de verificar se os programas de auditório solicitam autorização para que essas crianças participem desses programas da forma como participam, além de verificar que padrão ético existe nas emissoras que permitem que grupos adultos, com forte apelo erótico participem de programas infantis. Não se trata aqui de uma censura, mas de se ter ações éticas que impeçam que as emissoras de televisão exibam conteúdos inadequados para um público infantil e adolescente.

    No que se refere à televisão, não se pode deixar de lado as telenovelas como um fator que facilita esta erotização precoce. Os temas abordados, os comportamentos das personagens no se refere à sexualidade e ate mesmo através da precocidade de alguns personagens, além de cenas de nudez apresentada e horários em que o público infantil e adolescente assiste, acaba por criar na mente o que passa a se refletir no corpo da criança e adolescente, a falsa ideia de que já estão maduros para este tipo de comportamento.

    A liberdade de expressão cultural, imprensa e informação, estabelecida no Brasil em boa época, se tornou uma justificativa para que o Estado se tornasse omisso no que se refere ao controle de qualidade dos programas de televisão e de seus conteúdos, tornando os valores éticos algo que não é sequer cogitado, a título de não tolher a criatividade dos autores. Nos países de primeiro mundo, onde não existe censura, os abusos são punidos com suspensão de emissoras quando estas apresentam imagem ou textos que são inadequados a assistência infantil.

    Entre temas recorrentes nas telenovelas brasileiras, destacamos apologia ao homossexualismo, cenas de sexo oral ou genital, masturbação, sexo com animais e estupros. Sendo assim tudo que se refere ao relacionamento sexual habitual ou não já serviu de tema para telenovelas brasileiras. Os pais, por sua vez, não criando limites aos filhos, na eventual hipótese de um filho ver cenas tais como as descritas, sem saber o que responder, por vezes mente, prejudicando a formação normal da criança ou em outras vezes despeja conteúdo de conhecimento inadequado a estas faixas-etárias.

    Outro dado importante refere-se ao fato de que a profissão de modelo, tão almejada por algumas adolescentes, por conta do sucesso rápido, quando estabelecido em pessoas que mal saíram da infância, produz um estímulo a eroticidade precoce. Aos se tornarem modelos, participam de um processo fantasioso saciando um publico adulto, quando elas mesmas deveriam estar brincando de acordo com suas faixas-etárias.

    É preciso fazer uma análise do mercado da moda como fator de favorecedor da erotização precoce. O Brasil é considerado como um fornecedor de mulheres para este mercado. O que é tido como um motivo de alegria para os brasileiros, na realidade é fruto de um descuido com a infância e juventude. Entende-se que para as agencias de modelo, mulher bonita, que é produto deste mercado não pode ter mais que dezesseis anos. O que se percebe aqui, é que as agencias de modelo, não podendo recrutar em seus países de origens mulheres com menos de dezoito anos, recorrem ao Brasil, que não faz nenhuma objeção a contratação de meninas de treze anos. O resultado disso é um amadurecimento precoce, que por vias normais não estava prevista na psiquê destas meninas. É importante ressaltar que, já existem cursos de modelos que aceitam alunas que sequer chegaram aos dez anos, e que não vestem roupas de crianças, mas reproduzem o modelo de mulher adulta, muitas vezes erotizadas. Nos desfiles infantis, o que se vê é uma réplica dos desfiles adultos, com crianças que não caminham e não se comportam como crianças, com caminhar e gestual erotizado. Não é de se estranhar que na adolescência essa criança já seja uma profissional. Uma análise do mercado da moda brasileira, gerará uma percepção equivocada de que os países do primeiro mundo são atrasados e preconceituosos por não permitirem modelos com menos de dezoito anos. Nestes países, sabe-se que esta profissão exige um preparo psicológico que não pode ser implementado aos treze anos. Além disso, é sabido que nesta profissão, as excedentes das agências acabam recebendo propostas inescrupulosas para a utilização de seus corpos. Nesse sentido, como uma criança de treze anos pode reagir a essas investidas? O caminho que se segue, passa pela prostituição, drogas, que tentarão compensar uma possível frustração profissional.

    Desta forma, é preciso que a sociedade se preocupe em inquirir as entidades estatais, sobre as agências de modelo e seus trabalhos, tentando estabelecer posicionamentos éticos que visem proteger a infância e a adolescência, como é previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente.

    Com o advento da internet e da vida virtual e on line, o processo de erotização precoce ganha novos contornos e, neste caso, com efeitos absurdamente rápidos. Como foi dito, além de prejudicar as crianças, a internet como vitrine deste mercado erotizante encontra consumidores vorazes deste produto. O que foi dito sobre modelos que não fizeram sucesso, se encaixa na internet como uma luva. A pedofilia e a pornografia infantil são acentuadas a cada dia que passa. Além disso, os consumidores deste mercado continuam enxergando nesta precocidade um objeto de prazer, alimentando assim, a cada dia um mercado que destrói a infância e adolescência destes meninos e meninas. Pode-se dizer que a pedofilia na internet não é somente uma causa, mas um efeito da pedofilia produzida pelo adulto que não consegue enxergar e distinguir códigos morais relacionados com a criança e o adolescente.

    Em consequência desta erotização precoce levanta-se uma discussão com uma conclusão óbvia de que o avanço da pedofilia via internet, é relacional com o processo de erotização da infância. É na internet que a pedofilia encontra seu campo de discrição e esconderijos dos criminosos pedófilos.

    A internet gera novos padrões de sexualidade com o que é conhecido como sexo virtual. Essa virtualização do sexo permite que sejam concretizadas fantasias sexuais, fazendo com que pessoas que antes eram honestas, protegidas por um pseudo anonimato se transformem naquilo que suas fantasias determinem. Evidentemente, se tal fato ocorre com adultos, não é de se estranhar que aconteça também com crianças e adolescentes. O que era antes apenas fruto de uma fantasia solitária, passa a ser realizada no meio virtual com pessoas que podem, sem se tocar, exibir-se e satisfazerem suas permissividades sexuais. Nos sites de pedofilia, esta realidade é brutal, pois lá se expõe seres que não deveriam ainda estar neste mundo de sexualidade.

    É muito importante considerar que, mais uma vez o Estado parece não se importar com este tipo de ação criminosa e degradante. Assim sendo, o que acontece na mídia televisiva é reproduzido na internet sem nenhuma repressão estatal.
Conclui-se que é preciso que se efetue um amplo levantamento do problema de modo a evitar que a erotização precoce de crianças e adolescentes continue sendo moeda em um mercado cada vez mais competitivo. Uma discussão no nível médico poderia acrescentar elementos que mostrassem que essa eroticidade precoce produz alterações hormonais e antecipação do momento da puberdade, transformado a temática em algo que vai além de uma questão social, atingindo a esfera clínica. Nesta conclusão é preciso salientar que não se pode mais fechar os olhos para os principais instrumentos de erotização da infância, destacando-se a televisão, por seu conteúdo altamente inadequado e pernicioso.

    Em síntese, se nada for feito, corre-se o risco de que a sociedade se torne tão permissiva, que passe a considerar comum o processo de eroticidade infantil precoce. Se isso acontecer de fato, estará instaurado um problema social, já presente, onde meninas de doze, treze e quatorze anos, já estão grávidas, em um momento de suas vidas que nem o corpo nem a mente estão preparados para tal fato.

    Por fim, propõe-se como inicio da solução para o processo da erotização precoce, um diálogo com a sociedade em todos os seus setores, com o intuito de encontrar saídas dignas e que dignifique a criança e o adolescente, vitimas desse processo. Além disso, propõe-se que sejam criados grupos de estudos que visem encontrar ações para que o Estado faça o que não tem feito até agora, fiscalizando, controlando e punindo as diversas mídias que favorecem o processo de erotização da infância.

Referencias

1. Livros

BOCK, Ana Mercês Bahia, FURTADO, Odair, TEXEIRA, Maria de Lourdes Trassi, Psicologias: Uma introdução ao estudo de Psicologia. 13a ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2001

2. Documentos e dados da Internet

AURÉLIO, Marco, STF - HABEAS CORPUS: HC 73662 MG

Endereço eletrônico http://www.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/14701869/habeas-corpus-hc-73662-mg-stf acessado no dia 24/11/2012

Vídeo desfile de moda infantil em Fortaleza no Shopping Aldeota no Estilo Moda Aldeota Crianças 2010

Endereço eletrônico https://www.youtube.com/watch?v=yCqFGWVJyQc&feature=related acessado no dia 24/11/2012

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nao gostei

Carol | 02/06/2014

Nao me ajudou.

Infancia erotizada

Sérgio | 30/03/2014

Perfeito o artigo. Comento esse fato de forma geral, mas não vejo o povo ainda notando tal fato tão explícito, isso é lamentável. Quando falo desse assunto, vejo as pessoas concordando de forma tímida sem uma posição firme que tal fato é grave e ainda somos usados com falsas verdades dessa mídia sem escrúpulos.

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